Meta Batida
Netto Simões

O recuo estratégico.

Você deve estar pensando: "a pessoa vê essas perguntas e já percebe que é um vendedor te qualificando". Só muito leigo não perceberia. Por isso você usa o recuo estratégico antes de fazer as perguntas. O recuo estratégico é quando você quebra a expectativa do James, deixando claro que você tem critérios claros para vender.

A sequência completa fica assim. Primeira mensagem:

Oi fulano, eu vi aqui que você acabou de acessar o nosso site. Foi isso mesmo?

Depois que ela confirma:

Ah, que bacana, fulano, eu sou o Neto, aqui do Vendas Pro. Vou dar seguimento aqui no seu atendimento. Antes, até para entender se a nossa solução pode te ajudar realmente ou não, tudo bem se eu te fizer algumas perguntas?

O objetivo dessa mensagem é acalmar a pessoa, que provavelmente esperava um "seja bem-vindo ao Vendas Pro, o maior ecossistema do mercado digital, já formamos X alunos..." — o pitch clássico que ela já ouviu nos concorrentes. Aqui não: eu dou um recuo, dizendo que quero entender se consigo ajudar ou não, e peço permissão para perguntar.

Depois desse recuo, entram as três perguntas (situação, motivação, impeditivo). Depois que a pessoa responde, eu fecho com:

Perfeito, fulano. Posso te mandar um áudio breve? Você consegue ouvir aí agora?

E é aí que entra o segredo: o áudio. Ele precisa ter, na ordem:

  1. Elemento de diferenciação — "a gente não vende carne para vegano" (como falei na aula passada).
  2. Inimigo em comum — o motivo pelo qual sua solução existe.
  3. Máquina de Xerox — a justificativa (lembrando: o conteúdo da justificativa importa menos do que o fato de existir uma).
  4. Takeaway — desprendimento, o que contraria a expectativa do James, que está esperando um pitch de vendas e recebe outra coisa.
  5. Call to action — sempre precisa ter um.

O áudio não pode durar mais do que 60 segundos.

Exemplo hipotético. A Maria entrou no funil de uma pós-graduação em veterinária. Ela é formada, nunca fez pós, mas quer fazer porque percebeu demanda de mercado por raio-x de pets. O áudio ficaria assim:

Oi Maria, aqui é o Neto, que bom que deu certo da gente se falar. Por que que eu tomei a liberdade de te mandar esse áudio? Porque aqui no Instituto XPTO, a gente tem todo um cuidado na hora de matricular novos alunos para a nossa pós. Porque a gente sabe que hoje, infelizmente, no mercado se vende muita facilidade. Você trabalha com veterinária, é muito sério essa decisão de fazer uma pós-graduação. E algumas informações que você me passou aqui, que você ainda não faz pós e que quer uma coisa muito voltada para o Raio X, ela me chamou a atenção. Por conta disso, eu preferi aqui mudar um pouquinho o meu processo e te propor uma ligação de 10 a 15 minutos, bem breve, para a gente entender juntos se realmente a nossa solução faz sentido ou não para você. Como que você tá de tempo agora, Maria?

Reparem o que esse áudio faz: eu não vendi, pelo contrário, eu "desvendi". Usei o elemento de diferenciação ("a gente tem todo um cuidado na hora de matricular, porque no mercado se vende muita facilidade" — aí está o inimigo em comum), usei a máquina de Xerox ("algumas informações que você me passou me chamaram a atenção" — dando o contexto), e fechei com o takeaway e o call to action ("vamos bater um papo para ver se faz sentido, você tem 10, 15 minutos agora?").

Com isso, peguei um lead que estava armado contra discursos comerciais — porque, não seja ingênuo, se ela está pesquisando com você, está falando com várias outras empresas também, e a maioria dos departamentos comerciais são tiradores de pedido, não se interessam em entender os motivos da pessoa. Ela caiu num atendimento que, além de começar com perguntas focadas nela (liberando dopamina e gerando engajamento), ainda não tentou vender de cara — pelo contrário, demonstrou cuidado. Fui contraintuitivo na abordagem, e é isso que me diferencia dos concorrentes.

Sendo contraintuitivo, consigo sair da caixinha de "vendedor" que a pessoa tem na cabeça — protegida pelo James — e ocupar o espaço do vendedor consultivo: que se preocupa, que não vende carne para vegano, que é íntegro na abordagem, que fala quando não é o momento da pessoa ou quando o produto não atende o que ela busca. É esse o espaço que eu quero que você ocupe — o do vendedor profissional, com relação genuína com o lead.

Com o recuo estratégico, tecnicamente eu desperto reciprocidade, confiança e um sentimento de imparcialidade. Não dá para ser percebido como totalmente imparcial — você defende a bandeira de uma empresa, de um produto — mas dá para transmitir que sua parcialidade não se sobrepõe aos interesses da pessoa, que você não vai vender algo que ela não precisa só por causa de meta ou comissão.

Se ela sentir isso, fica muito mais fácil topar uma ligação com você. É o recuo estratégico que, dentro do método DEF, abre a chance de levar a pessoa para uma venda consultiva por ligação.